Só pra não dizer que ainda não comecei...

Bem, estas primeiras linhas vêm somente para que não adentres a este humilde blog em vão. Sê bem-vindo(a) e espero que aproveites estas palavras ou, pelo menos, as compreendas e lhes não atribuas sentidos escusos.
E, para fins de esclarecimento: escrevo o que minha cabeça ordena, e, sinceramente, não tenho cá grandes preocupações com o fato de ninguém por aí meter-se a ler pensamentos para entender minhas palavras...
E, se por ventura ficares a ver navios, tendo minhas linhas no horizonte distante...
... Azar o teu!

11 de junho de 2015

Bianca (parte 5)

Link parte 1: Bianca (parte 1)
Link parte 4: Bianca (parte 4)

Eita, Giovana!

Sugestão de trilha sonora (pra daqui a trinta e poucas linhas...): Paula Cole - Feelin' Love (link)
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Segunda-feira, acordei antes do João. Ele me levou para o trabalho, uma hora e meia antes, e fiquei esperando no café da esquina. Nada da Viviane. Ela só chegou no fim da manhã, deixando expressamente avisado que não queria ser incomodada e passou por mim sem nem me olhar. Esperei a secretária trilíngue do óculos com armação azul ir ao banheiro e, sem pestanejar, me levantei e entrei naquela sala. Sem bater.
— Isso é jeito de entrar? Eu pedi pra ninguém me incomodar.
— Foda-se.
Ela ficou espantada. E eu nem dei tempo pra ela dizer mais nada.
— O que tá acontecendo? Se você quer me demitir, ou algo assim, vai fundo! Mas não passa por mim e me ignora como você fez ali...
Eu juro que não sei de onde vieram essas coisas. Nem o foda-se, nem as minhas repentinas bolas pra terminar aquela frase. E trocamos aquele olhar de novo, por um bom tempo. Baixei a cabeça e senti um risco molhar minha face.
— Não tenho por que te demitir... — ela respondeu, com o rosto igualmente molhado. — Sou tão culpada quanto você por isso tudo, essa situação... Por esse erro...
A última parte doeu mais que o resto todo. Então eu me aproximei, segurei sua mão.
— Desculpa... Mas não foi um erro pra mim. Não somos crianças, a gente não precisa fazer uma tempestade disso...
— Bianca, você é minha funcionária, é casada — enfatizou bem essa parte — Não podíamos ter deixado algo assim acontecer.
— Mas então por que você fugiu?
— Eu não fugi, eu tinha umas coisas pra resolver e...
— Merda nenhuma.
— Ei! O que é isso? Olha como você fala comigo aqui dentro! E abaixa o tom da voz.
Estávamos falando alto demais, já deveríamos estar chamando a atenção dos outros. Recuei um passo, mas estava aflita.
— Olha pra mim. Confessa que fugiu. Confessa que ficou pensando em tudo aquilo... Confessa que não conseguiu tirar aquela noite da cabeça... — comecei a soluçar — Confessa que pensou em mim em cada minuto desde a hora em que a gente se beijou... Por favor... Confessa... Porque isso tudo tá me enlouquecendo... Não parei de pensar em você, naquele beijo... No que aconteceu e no que podia ter acontecido...
Abracei-a com força, mas sem muita reciprocidade.
— Bianca... Não sei o que te dizer... — desconversou.
Me afastei novamente, percebendo que ela estava desconfortável com aquilo, engoli o choro, enxuguei as lágrimas e respirei fundo.
— Desculpa. Eu não devia ter entrado aqui. Foi muita petulância da minha parte. Você pediu pra não te incomodarem. Me desculpa. Vou sair. Depois você decide se acha melhor que eu não siga na empresa. Não vou me opor a qualquer decisão... Com licença.
Levei mais alguns segundos pra me acalmar completamente, virei as costas e fui em direção à porta.
— Eu fugi.
Parei.
— Eu fugi... Porque eu não queria chegar aqui e te olhar. Não queria sentir de novo aquele desejo... Tava com medo de ficar perto de você, de sentir o seu cheiro... De ter vontade de te beijar, de transar com você aqui, nessa mesa... De ir até o fim... De continuar de onde a gente parou. É claro que eu não consegui parar de pensar naquela noite.
Sorri. Senti um alívio enorme. Cheguei até ela acho que em dois passos, e a beijei. E foi um beijo tão consciente! Não tinha álcool, não tinha joguinhos, provocações. Eu estava nua. Pela primeira vez, me sentia completamente nua, desprotegida, desarmada, ao beijar alguém, ao estar com alguém. Não contei o tempo... Mas foi bastante.
— Que bela mesa... — sorri, mordendo o lábio.
Ela foi até a porta e a trancou.
— Você é maluca... E eu acho que gosto disso...
Eu já estava em pé, escorada na mesa. Ela encaixou o corpo entre minhas pernas e começou a desabotoar a camisa, lentamente, me beijando o pescoço. Tirou minha blusa, e passeava suas mãos quentes pelas minhas costas... Agarrei sua bunda e virei-a contra a mesa. Nunca tinha sentido aquela vontade... Eu queria possuí-la, penetrá-la, fodê-la com meus dedos, minha língua.
Já não tínhamos a menor noção de onde estávamos. Tirei sua calça e sentei-a sobre a mesa, então me agachei, lentamente beijando suas pernas, até que minha língua tocou seu sexo. Ela gemeu, talvez mais alto do que deveria. Mas não ligamos. Eu não parei e ela me pedia que continuasse.
— Isso... Me chupa... Isso... Ai...
E eu estava com muito tesão. Seria capaz de gozar sem sequer me tocar... Estava latejando, muito molhada. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo, mas fazia exatamente o que o meu instinto e o corpo dela mandavam.
— Vem cá — e me puxou para entre suas pernas — quero sentir teu corpo no meu.
Eu esfregava minha boceta em suas pernas e ela retribuía. Um ritmo cadenciado, com vigor. Eu sentia aquele líquido quente molhando minha coxa. Agarrava os cabelos, respirávamos muito ofegantes, tentando controlar os gemidos. Eu sussurrava ao seu ouvido...
— Gostosa... Eu quero te foder toda...
— Então fode... Mete bem gostoso e me faz gozar...
Enfiei um dedo, devagar, ela pedia mais, enfiei o outro, com força. Virei-a de costas. Que visão! O corpo suado, feminino, febril, rebolando enquanto eu metia meus dedos dentro dela. Quando senti que ela ia gozar, tapei sua boca.
— Shhh. Baixinho, baixinho... Daqui a pouco vão arrombar a porta...
— Vem cá!
Foi a minha vez de ser jogada sobre a mesa. Nessa hora um estrondo ao derrubarmos uma caixa de correspondências metálica e muito pesada nos deteve por cinco segundos. Rimos. A essa altura, só um surdo, a uma quadra dali, pra não ter entendido o que estava acontecendo naquela sala. Mas ninguém ousaria interromper ou falar qualquer coisa.
Ela começou a me chupar. E eu tenho a impressão de ter gritado... Mas não consigo ter certeza... Nem ela soube dizer. Eu gozei tão rápido e tão intensamente que achei que ia desmaiar. Minhas pernas quase quebraram a cadeira em que eu me apoiava. Depois disso ela sentou em sua cadeira. A cadeira da chefe. Sentei no seu colo. Continuávamos nos beijando. Agora o ritmo era mais lento. Eu acariciava seu corpo, enquanto minha respiração e meus batimentos tentavam voltar ao normal. Ela segurou minha cabeça entre as mãos e ficamos nos olhando por longos instantes, intercalando com beijos, mas sem dizer uma palavra sequer.
Talvez uma hora tenha sido o tempo que levou tudo aquilo... Passou voando! Não lembro que hora entrei na sala, não tinha a menor noção de quanto tempo, de fato, havia passado. Mas sabia de uma coisa com toda a certeza: não fomos nem um pouco discretas.
— Acho que a sua fama de chefe reservada e séria foi pro espaço...
— Bem como a sua fama de casada...
— Ai. Não tinha pensado nisso... Não tinha pensado em nada, aliás...
— Arrependida?
— Nunca — beijei-a — Faria tudo de novo.
— É só fazer...
— E vou... Mas não agora. Não aqui...
— Onde e quando?
— Calma... A gente marca... Pode ser na tua casa. Naquele sofá ou na tua cama — fechei os olhos — Deve ser muito gostoso fazer amor naquela cama...
— E é...
— Deve ser pra lá que você arrasta todas as outras...
Ela deu um sorriso sem jeito e ficou com o rosto corado...
— O quê? Vai me dizer que você não é...
— Lésbica?... Talvez...
— Talvez?
— Na verdade, sim... Mas estava “de molho”, até alguns dias atrás, pelo menos... Até a gente se beijar, lá em casa... Nunca tinha sentido nada parecido com isso por ninguém, não com essa intensidade...
— Eu vi uma foto sua com outra mulher no Face... Estavam numa praia.
— Mas você não tá no meu Face... Eu acho.
— Não. Mas eu entrei no seu perfil, e a foto estava lá. Foi ela que postou... Ano passado. Era sua namorada?
— Você estava fuçando minha vida, é?
— Estava — sorri, com malícia, e a beijei.
— Não. Ela não foi minha namorada... Embora tenha sido a última pessoa com quem eu me envolvi.
Bem, estava na hora de encarar o mundo fora daquela sala. E eu estava morrendo de vergonha.
— Vamos almoçar? — perguntou, na maior cara de pau, enquanto tentava ajeitar o cabelo.
Ah, foda-se!
— Vamos.
E saímos, como se nada tivesse acontecido. A secretária trilíngue do óculos com armação azul foi a única que não conseguiu disfarçar o constrangimento. Acho que a coitada escutou absolutamente tudo, tão perto da porta. Talvez todo mundo tenha escutado tudo. Mas, quando passei na minha mesa para pegar a bolsa, entendi o real motivo do constrangimento. Havia um bilhete, num post-it, colado no meu monitor, que dizia: “Me liga” com a letra do João. Peguei meu celular, que havia ficado sobre a minha mesa e tinha umas quatro chamadas dele. Mostrei o bilhete pra Viviane. Fomos falar com a secretária.
— Que horas o João esteve aqui?
— Faz uns trinta minutos... Ele disse que queria almoçar com você.
Olhei pra ela com uma cara meio desesperada. Pela cronologia, digamos que ele chegou num momento não muito silencioso... Mas não tinha coragem de perguntar se ele tinha escutado alguma coisa.
— Desculpa, Dra. Marins. Mas não consegui evitar que ele ficasse... alguns minutos aguardando... Eu tentei ligar pra senhora, mas acho que seu telefone estava fora do gancho... Me desculpa... Mas... Não sei...
— Ele percebeu? — perguntou Viviane, num tom de voz bem baixo, mas sem muito constrangimento.
— Não posso dizer com certeza... Mas ele não parecia muito bem quando saiu.
— Ai meu Deus!

(continua)
Link última parte: Bianca (parte 6 - final)

Bianca (parte 6 - final)

Link parte 1: Bianca (parte 1)
Link parte 5: Bianca (parte 5)

Então, galere, essa é a última parte do texto, e a que, pra mim, é a mais crua e mais importante. Beijos!
Obrigada por escolherem voar conosco. E tenham um dia azul.
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Peguei minha bolsa e saí correndo. Liguei pra ele. Foi curto e grosso. Estava em casa, me esperando. Entrei, visivelmente nervosa. Não precisaria de muito pra me entregar... Ele chegou perto, como se fosse me dar um beijo, mas não chegou a encostar. Apenas falou, de um jeito que eu nunca o ouvi falar e nunca vou esquecer:
— Dá pra sentir o cheiro da boceta dela na tua cara... — ensaiou um tapa, mas não chegou a desferi-lo, e se afastou, com uma expressão de ódio e nojo.
— Ela ia te demitir?... Pra você precisar foder com ela?...
Comecei a chorar.
— Caralho, Bianca! Que porra é essa?! — ele veio em minha direção e me agarrou pelos braços — Que porra é essa? Responde! Trepando com a chefe, uma mulher! Praticamente na frente de todo mundo? Como se aquilo fosse um bordel, e não um escritório. Todo mundo escutando os grunhidos das duas putas!
— Para! Não sei o que dizer... Não sei explicar... Aconteceu...
— Aquele dia, que você não voltou pra casa... Vocês foderam também? Há quanto tempo vocês tão me fazendo de otário??! Há quanto tempo tu virou uma lésbica dessas? Ela te contratou pra ser a puta dela? — serrou os dentes e, novamente, ergueu a mão, como se fosse me bater.
— Não!
Ele me segurava com muita força, estava começando a machucar.
— Qual é o seu problema? Não gosta de foder comigo? Achei que eu sabia te satisfazer, que sabia do que você gostava... — E começou a tirar a minha calça.
— Chega, João! Para!
— Achei que era disso que você gostava...
E me forçou contra a parede, segurando minha boca, enquanto forçava seu pau dentro de mim. Eu queria gritar, mas só conseguia soluçar.
— Mas, pelo jeito, agora você gosta é de uma boceta...
Me jogou contra o sofá. E se lançou mais uma vez na minha direção, com raiva. Eu tentava me desvencilhar dele, mas era inútil.
— Para! Por favor... Para.
Ele fechou a calça, levantou-se e me agarrou pelo braço novamente.
— Vem comigo.
Pegou a chave do carro e foi em direção à porta, quase me arrastando.
— O que você tá fazendo?
— Liga pra ela! — jogou meu celular com força, contra meu rosto, o que o fez se espatifar ao cair no chão.
— Deixa ela em paz!
— Liga pra ela ou eu vou fazer um escândalo naquela porra de bordel! Já que todo mundo deve estar sabendo dessa putaria e rindo do corno aqui!
— Eu vou chamar a polícia!
Ele me soltou. Caí de joelhos, chorando compulsivamente. Ele saiu pelo corredor. Levantei e corri atrás dele.
— Deixa a Viviane em paz! Não chega perto dela!
— Não vou atrás da sua machorra! Quando eu voltar, não quero ver você aqui. Tá entendendo? Pega tuas coisas e sai daqui!
E se foi. Nenhum vizinho sequer abriu a porta pra ver o que estava acontecendo ou o motivo da gritaria. Entrei, fechei a porta e desabei. Eu estava machucada. Acabara de ser agredida e estuprada pelo homem com quem eu tinha me casado. Levei a mão no rosto e percebi que estava sangrando. Me sentia a última das pessoas. Só conseguia chorar. O pior de tudo é que eu ainda me sentia culpada... Não tinha forças pra levantar do chão.
Peguei os pedaços do meu celular, pra ver se conseguia fazê-lo funcionar, mas a tela havia se partido. Entrei em desespero, não sabia a quem recorrer. Não queria envolver minha família nisso... Então meu telefone fixo tocou. Com um pouco de dificuldade, um pouco tonta, consegui chegar até o aparelho e atender. Era Viviane.
— Oi... Tá tudo bem? Tô tentando ligar pro teu celular e tá desligado. Peguei teu fixo na agenda da secretária. Conseguiu falar com teu marido?
Quase não consegui dizer uma palavra... Só chorava.
— Foi horrível... Ele... Saiu...
— Ele te agrediu?
Não consegui responder. Ela veio me buscar. E, por receio do que poderia acontecer, não veio sozinha, trouxe um segurança amigo dela, pra garantir que o João não voltasse ou estivesse esperando. Deixou o rapaz parado na porta, e entrou. Abracei-a desesperada.
— Meu Deus! O que esse animal fez com você! Olha esses hematomas nos seus braços! E esse corte no seu rosto? Meu Deus! Você não chamou a polícia?
— Não... Não quero nada disso... Me leva daqui!
— Bianca... Se você não denunciar isso, ele pode fazer de novo, ou até pior... Isso não pode ficar assim...
— Não... Por favor... Me tira daqui.
Ela me ajudou a juntar algumas roupas, o que cabia na mala que tinha em casa, e saímos. Até o segurança ficou assustado com o meu estado. Fomos até um pronto atendimento para tratar o corte no rosto. Mas não deixei que ninguém mais visse os hematomas. Pelo estado deplorável em que eu me encontrava, foi muito difícil convencer a pessoa que me atendeu de que eu havia sentido tonturas, me desequilibrado e batido a cabeça contra um móvel, porque estava sem comer. Aliás, acho que não a convenci, mas Viviane conversou e conseguiu segurar o que resultaria provavelmente num comunicado à polícia.
Ela insistiu para que fôssemos pra casa dela, embora eu quisesse ir pra algum hotel.
— De jeito nenhum! Não vou te deixar sozinha. Também sou responsável por isso tudo... Vamos lá, você toma um banho e depois vai comer alguma coisa...
Entrei no banheiro, não conseguia me olhar no espelho. Aquele curativo no meio da minha cara era o menor dos meus problemas...
— Quer que eu fique com você?
— Não... Preciso ficar sozinha um pouco...
Depois do banho eu fui deitar, no mesmo quarto em que dormira no outro dia.
— Não... Aqui — interrompeu ela, apontando a porta do seu quarto — Você fica aqui, comigo... — pegou-me pela mão e me levou até a cama — Deita aí e espera que eu vou tomar um banho e venho ficar aqui do seu lado...
Quando ela voltou eu criei coragem e contei, de fato, e aos prantos, o que o João tinha feito. Ela ficou transtornada. Chorávamos juntas.
— Que monstro! Um animal desses tinha que estar é na cadeia! — e acariciava meus cabelos — Ele nunca mais vai chegar perto de você!... Fica tranquila, tá?... E tenta descansar...
E só consegui dormir com a cabeça deitada em seu peito, entre seu abraço, escutando sua respiração, que se acalmava junto com a minha.

Nos dias seguintes, quando eu me senti melhor, recuperada daquele episódio horrível, comecei a entender melhor o que estava acontecendo dentro de mim. Foi quando parei de me culpar e realmente pensei sobre o que eu sentia. Depois de tantos impulsos, de tanta confusão, de tantos sentimentos e desejos nebulosos, as coisas estavam, finalmente, clareando na minha cabeça. E com Viviane eu tive mais uma grande descoberta: fiz amor, pela primeira vez na minha vida! Naquela cama onde já estávamos dormindo todas as noites. Não um amor suave e delicado. Foi tudo muito intenso, forte, cheio de puxões de cabelo, arranhões. Uma noite inteira de prazeres e sensações que me faziam sentir completa. Senti-me conectada a ela de uma forma que jamais sentira com ninguém. E, quando ela estava dentro de mim, e eu fui toda sua, eu consegui deixar sair, com uma verdade nunca antes tão sólida, do fundo da minha alma, olhando aqueles olhos castanhos, o que eu realmente estava sentindo.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, talvez desde o momento em que nos beijamos pela primeira vez — respondeu, sorrindo, antes de me beijar — Mas talvez tenha que te demitir, né?... — brincou.
— Então, eu acho que vou ter que usar o meu método infalível para dissuadi-la e resolver esse problema... O que acha?...
— Deixa eu ligar e avisar pro pessoal do escritório tirar o dia de folga, então... Eles não precisam escutar tudo aquilo de novo...



(Até que enFIM)


9 de junho de 2015

Bianca (parte 4)

Tá comprida, saporra, né?
Link parte 1: Bianca (parte 1)
Link parte 3: Bianca (parte 3)

Yay, caramba!
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Voltei pro carro sem saber onde enfiar a minha cara. Não sabia se tinha mais raiva do João ou vergonha de estar passando por essa situação na frente da minha chefe.
— Ai... Viviane... desculpa... Não sei o que dizer. Acho que vou ligar pra uma amiga, de repente vou pra casa dela... Mas não precisa me levar. Eu pego um taxi. Você nem precisava estar aqui...
— Não esquenta a cabeça... Vamos dar uma volta, você tenta ligar pra ele de novo. Se ele não atender, eu te levo pra onde você quiser, não é trabalho nenhum. Já estamos aqui mesmo...
Fizemos como ela falou. E o João não atendeu. Mandei mensagem, Whats. Fiquei com muita raiva. Tentei falar com uma amiga (a única que, naquele momento, eu tinha a cara de pau de pedir guarida), mas também não deu em nada. Como meus pais não moram em Porto Alegre, não me sobrou muita opção.
— Vai lá pra casa.
— Ah é... — morri de vergonha — Depois de tudo isso que você já está fazendo! Bem capaz que vou chegar nesse cúmulo!
— Ui ui ui. Acha o que, que vou te demitir por causa disso? Se você for pensar bem, tudo começou por causa do meu pedido pra você ir nessa maldita reunião que não aconteceu. Você teve que desmarcar seu compromisso, brigou com seu marido e deu nisso... Não vou te largar num hotel ou coisa parecida. Até porque, eu é que teria que pagar — riu — Não é mesmo? E eu sou muito mão de vaca.
No fim das contas, acabei indo pra casa dela. Um belo apartamento, num belo bairro, um belo prédio. Entramos, ela foi logo tirando os sapatos, e me pediu que fizesse o mesmo e ficasse à vontade.
— Cerveja? Vinho? Algo mais forte pra espantar a zica?
Concordei com a terceira opção. Foi até o bar e pegou uma garrafa de uísque. Serviu duas doses. Peguei meu copo, e, enquanto ela ia até o quarto, fui apreciar a incrível vista da sacada. Ela retornou.
— Caralho! Que lua!
Eram mais palavrões vindos da chefe do que eu imaginava pra uma só noite e que era, tecnicamente, de negócios. Mas, depois de tanta coisa que já tinha acontecido de esquisito naquele dia, concordei e ri.
— Quer falar sobre o que aconteceu com seu marido hoje?
Hesitei um pouco.
— Calma... Isso é totalmente extraoficial. O expediente já acabou faz horas. Palavra de escoteiro.
Fiz um breve silêncio, respirei fundo e, depois de dar uns bons goles no Jack Daniel’s, comecei a falar. Era fácil conversar com ela. Parecia muito estranho, num primeiro momento, estar falando sobre coisas tão pessoais. Mas, depois de um começo meio tosco, naquela manhã, no escritório, tudo parecia tão simples. Passado o primeiro "choque" de ser chamada pela chefe, não conseguia mais me sentir desconfortável ou constrangida perto dela. E isso me parecia ótimo. Estávamos nos dando muito bem e eu estava há muito pouco tempo trabalhando com ela. Aliás, duvido que algum colega sequer soubesse onde ela mora. Talvez a Cláudia, que é uma das mais antigas e próximas a ela.
Em algum momento eu acho que já estava ficando meio bêbada, porque mencionei até a transa de antes da “reunião que não aconteceu”...
— Nossa. Então as coisas entre você e seu marido são quentes...
— O problema é justamente esse.
Ela fez cara de “ah, vá”.
— Ele me falou uma coisa hoje... que me deixou extremamente incomodada... Ele disse que eu resolvo tudo com sexo.
Ela fez uma expressão de alívio.
— Ufa.
— Que foi?
— Ainda bem que essa reunião nem começou...
Rimos alto.
— É sério, Viviane. Acho que ele tem razão. Sempre que temos um problema, uma discussão, eu apelo pro sexo. Acabo, literalmente, fodendo as coisas.
— Pelo menos vocês fodem. Isso já é muita coisa pra muito casal por aí.
— Mas acabamos não conversando, sabe? As coisas ficam mal resolvidas...
— E você gosta de transar com ele, pelo jeito, né... E isso é ótimo.
— Gosto.
Respondi tão prontamente à sua afirmação que, depois, parei pra pensar. Ficamos em silêncio. E eu me senti meio estranha. Sentia que a maneira como eu tinha dito aquilo soou estranha. Sem convicção, com preguiça. Ela percebeu que tocara em algo delicado, e ficou super sem jeito.
— Vish. Desculpa por te fazer falar nisso... Na real, não é da minha conta. Pode me cortar se achar que estou me metendo onde não devo. Às vezes perco um pouco a noção.
— Não. Tudo bem. Você não tem culpa.
Aproximou-se e me deu um inesperado e curto abraço. Novo silêncio. Ficamos olhando a lua. E eu estava, dessa vez de verdade, me sentindo moderadamente alcoolizada.
— Sério. Não consigo enxergar como um problema o fato de você gostar de sexo... — riu.
— Então não tente me demitir — brinquei, tentando retornar ao clima extrovertido de momentos antes.
— Ué. Acho que não sou bem o seu tipo...
— Olha pra você. Bem-sucedida, poderosa, linda... Seria um crime dispensar algo assim, até pra quem se diz hétero... — falei isso olhando pra ela, bem de perto, pegando em seu queixo. E ficamos nos olhando longamente.
Ela se afastou. Não entendi. Estávamos só brincando, não?
Voltou pra dentro. Sentou-se no sofá. Parei atrás dela, fiquei meio perdida, sem entender o que estava acontecendo. Pus a mão em seu ombro.
— Olha... Desculpa pela brincadeira. Perdão se te deixei desconfortável... É a minha mania... O João tem razão. Tenho que sexualizar tudo...
— Não precisa se desculpar.
Contornei o móvel e sentei do seu lado. Ela estava com os olhos mareados. Comecei a ficar confusa. Ficamos nos olhando, em silêncio, por uma eternidade, eu acho, sem saber o que dizer ou fazer. E esse foi o problema... O que eu faço quando não sei o que fazer... Uma coisa meio louca me passou pela cabeça. Fui lentamente aproximando meu rosto do seu e, antes que pudesse me deter ou pensar, já estava beijando sua boca. Ela não resistiu. Não me repeliu. Pelo contrário, puxou-me para si, e me beijava de volta, com vontade. Quando entendi o que estava fazendo, ela estava no meu colo, e eu subia sua saia, sem tirar minha língua da sua boca. Quase arranquei aquela camisa... E, nossa! Que lingerie sexy! Nunca tinha sentido tesão ao ver o corpo de outra mulher. Mas aquela, ali, tão perto, despertou um desejo que eu não conseguia controlar. Sentada sobre mim, ela se movia de um jeito que roçava a calcinha na minha coxa, e aquilo me deixou muito molhada. Aquela camisa aberta... Desprendi, habilidosamente, o sutiã, queria aqueles peitos. Ela gemeu quando eu encostei a língua... Agarrou-me pelos cabelos, enquanto eu lambia e chupava um, depois o outro e gemia mais alto.
De repente, ela se levantou.
— Que foi? — falei, ainda tentando processar aquilo tudo.
— É melhor a gente parar por aqui...
Levantei, ficamos frente a frente, nos olhando, de novo, sem dizer uma palavra. Essa falta de ação, essa atitude descoordenada, e também essa Bianca impulsiva e inconsequente não eram muito latentes na minha personalidade. Eu a queria... Mas não conseguia mais me mexer. Fiquei paralisada, olhando fixamente aqueles olhos castanhos.
— Acho que eu tenho que ir embora... Agora.
Estava meio desnorteada. Comecei a pensar em tudo o que poderia ter colocado em jogo naquele impulso.
— Não. Fica. Pode ficar naquele quarto — apontou uma porta ao lado da sua — Essa hora não é uma boa sair. Ainda mais sem saber se vai conseguir entrar em casa... E não estou mais em condições de me oferecer pra te levar.
Concordei. E não disse mais nada. Apenas movi as pernas na direção apontada. Instantes depois ela bateu à porta do quarto e me entregou um pijama. Agradeci. Ela saiu e foi para o seu quarto. Não conversamos mais.
Minha cabeça estava girando. E eu me sentia culpada, afinal, tinha agarrado minha chefe, uma mulher... Não podia ter feito isso. Não podia ter colocado, mais uma vez, o sexo no meio das coisas... Senti-me muito mal. Lembrei do João... E chorei. Baixinho. Chorei por quase uma hora, até conseguir dormir.
Acordei antes dela, e saí à francesa. Não queria encará-la naquela manhã. Acho que não teria coragem de olhar pra ela de novo. Cheguei em casa e o João não estava, mas tinha deixado a minha chave com o porteiro. Pela louça do café na pia, presumi que tinha saído há pouco pra trabalhar. E era o que eu devia fazer, embora não tivesse muita coragem. Tomei um longo banho. Tentava me acalmar pra encarar aquilo tudo de frente. Mas agora tinha um novo fantasma. Lembrava daquela noite. A imagem daquela mulher sobre mim era quase tátil. Se eu fechasse os olhos, era capaz de senti-la de novo, seus peitos, seu corpo, sua pele. Não consegui me conter... A água quente escorria pelo meu corpo e eu me tocava, imaginando como seria se ela não tivesse parado, se tivéssemos continuado... Gozei imaginando Viviane entre minhas pernas e entre meus lábios.
Fui trabalhar bastante atrasada, e morrendo de medo. Ela não foi. Não apareceu. Ela podia não aparecer. Ela era a chefe.
Cláudia ligou no meio da manhã pra saber da reunião. Eu não sabia bem o que dizer. E optei pela verdade... até a parte em que a reunião não aconteceu, claro. Não, eu não sabia por que a Dra. Marins não tinha vindo para o escritório nesta manhã. Não, não sabia se tinha acontecido alguma coisa. E não, não entendia por que ela não atendia o celular.
O dia se arrastou.
Fiquei sabendo, pela secretária trilíngue do óculos com armação azul, que ela ligou perto do meio-dia, avisando que teve uma viagem urgente, de última hora... Provavelmente pra Saturno... Ou Plutão. Eu sabia que não tinha compromisso nenhum. Sabia o porquê de ela não ter aparecido.
Quando voltava pra casa, dentro da lotação, senti um desespero tão grande, uma claustrofobia... Desci correndo, na metade do caminho, e entrei na primeira padaria que vi. Tomei um café. Com açúcar, dessa vez. O café mais demorado da minha vida. E fui pra casa a pé. Quando cheguei, dei de cara com o João, indignado, perguntando porque meu celular estava desligado, e por que eu não tinha falado com ele o dia inteiro. Foi quando me lembrei de quem eu era.
— Se você quisesse falar comigo, era só ter ligado.
— Mas eu liguei, Bia. E deu caixa postal.
— Devo ter ficado sem bateria, então.
— O que aconteceu? Por que você não veio dormir em casa?
— Ah, você tava em casa, então? Porque eu te liguei várias vezes ontem, liguei pra cá, pra porra do teu celular, toquei a merda do interfone, e nada!
— Eu tenho culpa de você ter esquecido essa bosta dessa chave, de novo?? Se tivesse olhado na garagem, teria visto que o carro tava ali... E você dormiu onde?
— Com a minha chefe... Digo, na casa dela... — Fiquei realmente constrangida. Ele nem ligou. Acho que não foi tão óbvia a minha autoincriminação. Afinal, eu era a esposa ninfomaníaca louca por um pau. Mas, ainda assim, tentei remendar — Ela me trouxe até aqui e foi gentil de me ajudar quando eu fiquei, que nem uma idiota, tentando entrar em casa... Não pensei em olhar carro nenhum. E também não podia deixar a minha chefe plantada... Tentei falar com a Jana, que também não me atendeu. Acabei aceitando, morta de vergonha, a gentileza da Viviane. Ainda bem que ela é super de boas e não se incomodou com isso tudo. Agora vou tomar um banho e dormir. Minha cabeça tá explodindo...
E já fui em direção ao banheiro antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Não conseguia dormir. E dessa vez, por incrível que pareça, não estava pensando no corpo de Viviane, no tesão, e nem no meu marido ou no seu pau. Fechava os olhos e enxergava os castanhos dela. Levei um susto quando ele deitou ao meu lado e me abraçou.
— Desculpa, gostosa... Eu me distraí ontem à noite, jogando no computador. Estava com os fones, não escutei... Deve ter sido a hora em que você tentou me ligar... Devia ter retornado as ligações. Mas tava de cabeça quente... — ele falava com as mãos procurando meu corpo debaixo das cobertas.
— Me deixa, João... Me deixa... Hoje eu não quero.
Ele obedeceu. Virou pro lado e começou a roncar em menos de vinte minutos. Eu demorei umas três horas pra conseguir dormir. E muito mal.
O dia seguinte no trabalho foi igualmente angustiante. Ela não apareceu, como já tinha deixado avisado, e ninguém parecia dar muita bola, afinal, ela era a chefe e podia fazer o que quisesse. Mas eu estava ficando meio surtada com aquela situação. Já era sexta-feira. Não tinha mais o que fazer.
Meu final de semana foi uma porcaria. O João achou que eu estava de TPM, nem chiou muito e me deixou em paz. Fiquei a maior parte do tempo na cama, com a cara enfiada no computador, fazendo absolutamente nada de útil. No meio do meu ócio, encontrei (porque procurei) o perfil dela no Facebook. Dois amigos em comum: a Cláudia e um ex-colega meu da faculdade. Claro que não tive coragem de adicionar, mas bisbilhotei absolutamente tudo o que era possível, não sendo sua amiga... Uma foto me prendeu por vários minutos: ela estava numa praia, abraçada com outra mulher, a autora da postagem, que havia lhe marcado. “Uma tarde mais que agradável... Agradabilíssima” era a legenda da selfie.


(continua)
Link parte 5: Bianca (parte 5)

8 de junho de 2015

Bianca (parte 3)

Link da primeira parte: Bianca (parte 1)
Link da segunda parte: Bianca (parte 2)

Observação: Eu disse que era pra adultos... E isso que ainda tô só fritando a cebola.

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Descansei um pouco, tomei uma bebida pra tentar relaxar e, quando o João chegou, eu estava parada, só de calcinha, diante do roupeiro todo aberto, com cara de poucos amigos e o copo de uísque na mão.
— Ôpa... O que temos aqui?... — disse ele, me abraçando por trás, afrouxando a gravata e me agarrando os seios.
— Eu não tenho roupa.
— Que bom pra mim...
Virou-me para si e começamos a nos beijar. Tirou o copo da minha mão e largou sobre o criado-mudo.
— Você chegou cedo.
— Você também.
— Podemos tirar algum proveito disso, não?
— Não começa, seu tarado. Preciso de algo decente pra vestir...
— De repente um banhozinho a dois, pra relaxar... Depois você escolhe algo com calma...
Começava a desabotoar a camisa, quando me abraçou com mais força e senti seu pau duro, por baixo da calça social, forçando contra minha bunda. Fiquei excitada. Ele percebeu, e abaixou minha calcinha, me empurrou contra o roupeiro, abriu o zíper e começou a me foder ali mesmo. Fomos pro chuveiro. Ele me comeu por trás, agarrando meus cabelos. Depois virei de frente, e montei nele, que me apertava contra a parede, metendo com força.
Ele tinha razão. Eu relaxei. Tanto que quase perdi a hora.
— Droga. Não posso me atrasar! Essa reunião é mega importante...
— Bia, que reunião? A gente vai só jantar na casa do Fabrício.
Agora sim: putaquepariu. Esqueci de avisar pro meu marido que era pra cancelar o jantar. Tive o dia inteiro pra isso. E esqueci. Que vaca!
— Ai.... Amor... Me desculpa... Eu esqueci de te ligar...
— Não, Bia... Que porra é essa?
— É uma reunião de trabalho. Surgiu de última hora... Nem era pra eu ir, mas a Viviane me chamou e...
— Que Viviane?
— Minha chefe. Ela me convocou pra essa reunião. É um dos contratos mais importantes em que estamos trabalhando recentemente...
— Que sacanagem! Não falo por mim, mas pelo Fabrício e a Jú, que tão esperando a gente. Porra...
Ele realmente não gostou do meu esquecimento... Ficou puto. Tentei explicar, mas ele saiu do quarto e foi ligar pra ver se ainda conseguia, pelo menos, evitar que eles se dessem ao trabalho de fazer o jantar.
— Amor, vai você... De repente a reunião termina cedo e eu vou pra lá depois.
— Bia, era pra ser um jantar de casais. Não vou sozinho, pra ficar esperando, talvez, que você apareça sei lá eu que hora...
Deixei que ele ligasse e voltei pra o meu problema pré-sexual: a roupa. Testei umas três combinações. Quando ele voltou pro quarto, perguntei o que achava da escolha.
— Ah, na boa, vai à merda.
— Nossa, pra que tanto?
— A sua enorme falta de consideração, talvez. Podia ter me falado pelo menos na hora que eu cheguei.
— Você chegou e começou a me foder. Desculpa se não pensei nisso enquanto enfiava teu pau em mim!
Ele saiu do quarto de novo. E eu fui terminar de me arrumar. Maquiagem, uma ajeitada no cabelo (que eu não queria ter molhado, mas agora paciência). Mas a hora correu, e eu já estava quase no limite do horário. Dessa vez, pelo menos, lembrei de pegar um casaco.
— João... Preciso que você me leve.
— O quê?
Ai, para de drama. Me leva no escritório.
— Dirige você. Pega o carro e vai.
— Não posso. Eu bebi... E posso não conseguir estacionar ali perto... Essa hora é perigoso. E não quero correr o risco de me atrasar mais ainda...
— Mas essa merda de prédio não tem estacionamento?
— Não sei se funciona a essa hora... Tah. Esquece. Vou chamar um taxi.
— Merda. Eu te levo...
Saímos ainda batendo boca, mas ele me levou. Não era louco de negar. No carro, eu ainda tentei acalmar as coisas... Mas não adiantou. Meu método — enfiar a mão dentro da sua calça de abrigo e bater uma punheta, já que um boquete estragaria minha maquiagem — não surtiu muito efeito. Ele me mandou parar.
— Você quer resolver tudo com sexo!
— Você nunca reclamou...
— Estou reclamando agora. Cresce um pouco, Bianca. Nem tudo se resume a isso. Você foi filha da puta de não ter avisado antes. O Fabrício já tava com tudo encaminhado lá...
— De repente, posso ir lá depois da reunião pra compensar com ele também. Do meu jeito, como você acaba de falar! Posso compensar pros dois: ele e aquela mulher afetada que ele arranjou! Posso foder os dois!
— Não acredito que você tá dizendo isso!
— Não foi isso que você acabou de dizer? De repente, se eu me atrasar, posso foder minha chefe e os velhos que vão pra essa reunião também!
— Caralho. Cala essa boca!
Fiquei muito alterada. Ele também. E resolvemos ficar quietos. Desci do carro sem dizer nada, bati a porta com muita força. Atravessei a rua e entrei no prédio. Ele saiu cantando pneus. Quando entrei no escritório, estava fazendo muita força pra não chorar. Viviane percebeu e perguntou o que tinha acontecido. Pedi desculpas por não ter chegado antes. Ela deu de ombros, dizendo que os clientes haviam ligado, avisando que iriam atrasar uma hora.
— Quer beber alguma coisa?
— Aqui?
Ela foi até um pequeno armário em sua sala e trouxe uma garrafa de Bailey’s. Eu não devia, mas aceitei. Começamos a conversar sobre trabalho, sobre qualquer coisa, e consegui dissipar a nuvem que estava sobre minha cabeça quando cheguei. A tal hora se passou, e nada dos clientes, tampouco de nos darmos conta disso.
Fui ao banheiro, tentei ligar pro João, que não me atendeu, e, quando retornei, ela estava meio furiosa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim. O velho imbecil inventou uma úlcera, gastrite, sei lá eu que porcaria, e resolveu cancelar a reunião!
— Ah é?...
— Filho da puta.
Credo. Foi muito estranho ouvir a “mulher de preto” falar aquilo. Aliás... Ela não estava tão de preto. Mas, tecnicamente, não estava com nenhuma cor. Era uma saia em tom grafite, uma camisa muito colada, branca, e um terno combinando com o sapato. Mas minha noite já tinha começado uma bosta, então, liguei o foda-se: enchi as pequenas taças novamente, até quase transbordarem, entreguei uma pra ela, ergui a minha e bradei:
— Filho da puta.
Rimos.
Bem, não havia mais o que fazer. Era melhor eu ir embora, antes que ficasse bêbada e começasse a falar bobagens pra minha chefe, ainda mais num emprego tão recente... e ótimo, aliás.
— Vou pra casa então, se você não se importa. Tenho um casamento pra consertar.
— Aaah. Foi por isso que você chegou aqui daquele jeito...
— É...
— Certo, então. Eu te levo.
— Capaz. Eu pego um taxi. Não moro longe.
— Melhor ainda! Eu te levo.
— Mas... Você bebeu... A gente bebeu.
— Ah, sim. Essas baitas taças! — riu — Não sei como não entramos em coma... Não se preocupe. Vou devagar... Fica tranquila... Tranquiiilo.
Quando ela terminou a última palavra, desandamos a gargalhar e ela enganchou seu braço no meu.
— Vamos Buzz Lightyear! Ao elevador, e além!
E descemos até a garagem (que sim, funcionava àquela hora). Fomos conversando no caminho. Quando chegamos na porta do meu prédio eu procurei minhas chaves e não encontrei. Casaco, bolsa, nada. Então lembrei que não estava com elas, porque saí junto com o João e esqueci de pegar. Liguei pra ele. Não atendeu. Até conferi as horas, mas não era tão tarde assim. Liguei de novo. Nada. Liguei pra casa. Nada.
— Faz assim: vai ali e toca o interfone. Se ele não atender, volta pra cá.
NADA.

              
(continua)

Link parte 4: Bianca (parte 4)

5 de junho de 2015

Bianca (parte 2)

Para começar a ler essa historinha, clique aqui: Bianca (parte 1) ou simplesmente, leia o post anterior...

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Sentei. Ela também. Eu não entendia muito bem por que estava me sentindo nervosa. Era uma situação bastante comum. Acho que a coincidência com o meu devaneio me deixou instável.
— Bom dia, Bianca.
— Bom dia...
— Bem, vou ser direta. Você sabe que temos uma reunião hoje, pra discutirmos os acertos finais desse contrato... — e apontou a pilha de folhas que estava virada pra mim. Olhei, acenei positivamente com a cabeça. Ela continuou — E você está envolvida na elaboração e revisão desse contrato, não? Você é quem está fazendo isso, junto com a Cláudia. — Novamente, apenas acenei com a cabeça, o que já estava parecendo esquisito demais... — Pois bem. A reunião estava marcada para as 16 horas. Mas parece que o presidente da empresa resolveu estar presente, o que nos obrigaria a mudar o horário ou a data. Infelizmente, esse mesmo presidente não tem outra data disponível tão cedo pra se dar ao trabalho de vir a Porto Alegre, o que faz com que isso tenha que ser hoje, pois já estamos ficando sem tempo. Cheguei a sugerir uma videoconferência, mas ele não parece muito adepto dessas “modernidades” — torceu o nariz com um ar afetado ao pronunciar a última palavra — A Cláudia estava escalada pra vir comigo, mas, com essa mudança repentina no horário, ela não vai poder, pois tem um compromisso pessoal importante e nem eu tenho o direito de pedir a ela que cancele. Então, conversamos e ela me disse que poderia confiar em você para participar da reunião no lugar dela.... Enfim, eu gostaria de saber se você pode. Se importa?
—Capaz. Tranquilo. — what?? “Capaz”?? “Tranquilo”??? Isso é coisa que se responda? Preciso verificar aquele café. Pode não ser conhaque, mas alguma coisa bizarra foi colocada nele!
Ela riu da minha resposta.
— Você está bem? Parece incomodada com alguma coisa...
— Não. Não... é o frio... Estou com um pouco de frio.
— Ah, sim. Você está com pouca roupa mesmo... Pra um dia como esse... E ainda estamos com esse problema na central do ar. Mais uma coisa pra eu verificar ainda hoje, aliás. Precisam consertar isso.
Ficamos um instante em silêncio. E eu estava sendo engolida por um vácuo, um buraco negro de constrangimento que surgiu sabe-se lá de onde! Não tinha motivos pra estar tão desconfortável. Parecia uma retardada. Tentei organizar alguma coisa na minha cabeça idiota.
— Dra. Marins, me desculpe... é qu
— Viviane.
— Oi?...
— Viviane. Me chame de Viviane. Essa insistência em me chamarem pelo sobrenome me faz sentir uma velha de setenta anos... Ou um coronel do exército.
Não consegui rir. Estava com medo de esse lapso ser um dano permanente no meu cérebro.
— Então... Viviane... Me desculpe também por isso. É que estou há pouco tempo trabalhando aqui, e...
— Entendo. Só “seguiu o curso”... Afinal, todos me chamam de Marins.
— Com Doutora na frente.
Mas ela conseguia rir. E bastante naquele dia, aliás. Era uma das primeiras vezes em que conversávamos sem estar com outros colegas. E eu já a tinha visto sorrir, naquela manhã, mais do que nos últimos três meses. Fiquei feliz com aquela sensação. Tentei relaxar. Sua risada, por estranho que pareça, me deixou menos nervosa. Acho que ela estava mesmo tentando quebrar o clima inexplicavelmente tenso.
— Bianca. Preciso de você.
— Oi?
Ela riu de novo.
— Desculpe...
— Pare de se desculpar, mulher. Deve ser o frio que faz isso com as pessoas — e riu de novo. Acho que ela achou uma função pra mim no escritório: fazê-la dar risadas... — Eu preciso que você me acompanhe nessa reunião. Tranquilo? — falou, fazendo alusão ao que eu tinha respondido, pateticamente, antes.
— Ah, sim. Claro. Mas, será onde? Aqui mesmo?
— Sim. Eles queriam marcar noutro lugar, mas achei melhor insistir em, pelo menos, manter o nosso território. Assim, a probabilidade de eu me esquecer de alguma coisa importante já fica anulada. Aqui, na sala de reuniões. Às 20 horas.
Tentei rever, mentalmente, meus horários daquele dia.
— Put...z.
Jesus! Alguém me tire daqui. “PUTZ”. Pelo menos foi um putz... Comparando com a soma geral dos últimos minutos, já me sentia no lucro por ter conseguido segurar o sonoro putaquepariu que estava escapando.
— Algum problema?
— Não. Não...
— Olha, se você tem compromisso, eu encaro essa reunião sozinha. Da mesma forma que não poderia cobrar isso da Cláudia, não vou fazer com você...
— Não... Não se preocupe. Eu tinha um jantar com o meu marido, e uns amigos... Mas posso remarcar, deixar pra outro dia... Não é nada importante. Era mais um happy-hour.
— Não quero atrapalhar. Na verdade, nem sabia que você era casada. Você está trabalhando conosco há tão pouco tempo, nem tivemos uma oportunidade de conversar direito ainda. Sei que isso não estava planejado, essa reunião nesse horário. Você não tem obrigação nenhuma de vir...
— Pode contar comigo.
— Mas...
— Eu dou um jeito. A senhora já falou que a
— Pelo amor de Deus! Senhora não, né. Nem doutora e nem senhora. Preciso acabar com essa “coisa” aqui dentro...
— Já sei. Viviane.
— Isso.
— Pois então, você, Viviane, já falou que a Cláudia não pode vir. Eu posso.
— Bem, nesse caso, estamos combinadas. Você pode sair mais cedo, porque não pretendo também ficar aqui fazendo hora. Saia mais cedo, vá pra casa, e retorne um pouco antes da reunião, pra discutirmos alguns detalhes, pode ser?
— Claro.
— Apenas te peço pra dar uma relida no contrato. Não quero deixar escapar nada. Temos que estar afiadas.
Saí da sala ainda meio atordoada. Mas estava me sentindo muito bem por ter essa oportunidade assim, tão cedo. Era uma reunião bem importante. O contrato era uma grande jogada. Um passo grande.
Depois disso o meu dia transcorreu normalmente. E frio. Até umas três da tarde, quanto ela saiu da sala e veio até minha mesa:
— Pode ir, se quiser. Eu já estou indo.
E virou as costas e se foi. E todos me olharam com cara de interrogação. Adorei. Mas ainda fiquei por cerca de meia hora, resolvendo algumas coisas pendentes, principalmente e-mails que não poderiam ficar sem resposta. Então fui pra casa.

(continua)

Link da terceira parte: Bianca (parte 3)

3 de junho de 2015

Bianca (parte 1)

     Primeiramente: tirem as crianças da sala!
 Esse conto foi escrito por uma pessoa adulta para ser lido por pessoas adultas. Alguns trechos podem (e vão!) conter palavrões e sexo.
É um texto bastante longo, que optei por dividir em partes e ir postando ao longo dos dias.
Obs.: Se eu não me engano, Bianca era o nome de um daqueles livrinhos que vendia nas bancas, com nomes de mulher, sempre um romancezinho que as nossas mães liam e achavam bem utererê. But, no.
Eis a primeira parte, e vamos começar devagarinho:

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BIANCA
E, por mais que os invernos estejam cada vez mais escassos por aqui, ainda sou surpreendida com aquele dia frio demais para a pouca roupa que escolhi. E, sistematicamente, esqueço de abrir a janela ou ir até a sacada para sentir a temperatura antes de ver o que vestir. Quando saio do prédio, oito andares abaixo, a preguiça me impede de retornar e colocar um agasalho decente. Passo o dia gélida, e termino com dor nas costas.
Bom dia, junho. E me vê um conhaque.
Seria menos sofrível se eu fosse de carro pro trabalho, mas, no fim das contas, meu marido é quem tem essa vantagem. E nem posso pedir que me leve, pois ele sai uma hora e meia antes de mim. Tampouco seria justo querer eu usar o carro no lugar dele, pois meu trabalho é na metade da distância, e na direção oposta. E, me desculpa, mas morro de frio na rua pra não ter que sair da cama uma hora e meia mais cedo! Paciência, então, né.
A lotação estava com o aquecimento ligado. Menos alguns minutos de sofrimento. Vejo que o dia pode melhorar. Chego no trabalho e descubro que estamos com problemas no sistema de ar. Que ótimo! Vai ser bacana passar o dia dentro desse iceberg! Parabéns. Litros de café quase fervendo pra ver se melhora. E bem que podia rolar aquele conhaque... no café. Ninguém iria notar. Talvez quando eu começasse a falar alto demais e rir, com as bochechas vermelhas. Talvez seria demitida. Comecei a rir sozinha — sem conhaque — ao imaginar a cena: eu, bêbada e descomposta, e a secretária trilíngue do óculos com armação azul vindo até minha mesa, toda sem graça “Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo”. Então, ao som de uma trilha de suspense, eu me levanto, fingindo uma firmeza tosca e alcoolizada, e vou até a sala da temida “mulher de preto”.
Pausa na imaginação para falar de cores. A Marins só usa preto. Preto com preto, preto com branco, preto com cinza. Esses dias ela usou uma camisa que eu poderia jurar que era azul, por baixo do terninho carérrimo, mas me convenceram que era cinza azulado. Uma mulher rica, inteligente, poderosa, aparentemente reservada, para quem não convive com ela, temida e admirada. Ninguém sabe muito da sua vida pessoal. Quando aparece em algum tipo de evento fora do escritório, está geralmente sozinha. Fala pouco, sorri moderadamente, e sempre vai embora antes de praticamente qualquer outra pessoa. Não faz a linha “megera”, porque trata todos com extremo respeito. Mas é exigente como se poderia esperar de alguém em sua posição. O mais incrível é que não estou falando de uma senhora. Estou falando de uma mulher de apenas trinta e seis anos. Cinco a mais que eu. E muitos a menos do que boa parte das pessoas que trabalham pra ela. Raramente se escuta o seu primeiro nome. Viviane. Acho mais bonito “Doutora Viviane”. Essa coisa de sobrenome é meio exército demais pro meu gosto. Mas, apesar de ela mesma não gostar de ser chamada desse jeito, o “excesso de respeito” impera por aqui.
Solteira convicta, desde que tinha vinte e poucos anos e terminou um noivado com um antigo namorado, ela jamais foi vista com ninguém, não por mais de uma festa ou evento isolado. Bem, não que seja, assim, uma celebridade, pra que tenha paparazzi ou stalkers a seguindo, mas nenhum colega ou conhecido relatou tê-la visto acompanhada por alguém de forma que se pudesse sugerir algum grau de relacionamento mais íntimo desde então. Meio nova pra ser taxada como uma solteirona. De qualquer forma, ponto pra ela no quesito discrição. Honestamente, não acredito que ela esteja todo esse tempo sozinha. Já escutei alguns boatos desde que comecei a trabalhar aqui, há pouco mais de três meses. Um ex-sócio, um advogado bonitão e até mesmo um rumor de que ela seria gay. Nada disso passando de teorias e especulações. Eu não apostaria uma unha na homossexualidade dela... Embora discreta, ela parece “das minhas”: gosta mesmo é de um macho.
E eu ali, em meio a minha viagem imaginativa daquela manhã congelante, quando escuto algo familiar.
— Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo.
Êpa! Até dei uma conferida no meu café, pra ver se, de fato, eu não tinha colocado algo nele. Não. Café puro. Preto, forte e sem açúcar. Fiquei olhando pra secretária trilíngue do óculos com armação azul por alguns instantes, tentando processar a informação. Ela deve ter pensado em conferir meu café também. Eu parecia, definitivamente, bêbada. Queria ir ao banheiro, ver se meu estado era tão deplorável quanto eu achava que era. Se estava descabelada, vermelha de vergonha — ou roxa de frio, mais provável. Mas ficaria mais esquisito ainda, depois da convocação sumária da chefe. Então, vamos lá! Respondi apenas “obrigada”, com um sorriso amarelo, levantei e fui. Me preparava para bater à porta quando ela abriu. De preto. Claro. Mas acho que ela não “adivinhou” que eu estava ali, com a mão erguida e o punho levemente fechado, pois estava com a cabeça baixa, distraída e, literalmente, nos esbarramos. Ela riu. Ufa. Riu de verdade. Riu quase alto. E pediu desculpa. Os colegas viram, escutaram, e não souberam muito bem como reagir. Ela deu um passo pro lado, e me pediu que entrasse. Presumi que não seria demitida por trabalhar alcoolizada.

     

(continua)

Link parte 2: Bianca (parte 2)

15 de abril de 2015

Terceirizações...

Amigos, quero pedir que façam um exercício antes de se posicionarem a favor da lei das terceirizações (se é que tem alguém aqui que concorda com isso):
Quando entrarem num prédio (de preferência público, e já explico o porquê), perguntem, discretamente, pra senhorinha da limpeza, pra menina do elevador, se, na empresa em que elas trabalham o salário nunca atrasa.
A questão mais cruel nas terceirizações é a seguinte: uma empresa grande, ou órgão público, contrata uma outra empresa, geralmente bem menor em proporções estruturais e financeiras, pra fazer serviços como limpeza e portaria. Ah, mas por que fazem isso? Deixa eu dar uma sugestão: porque, se a tia da limpeza, concursada, adoecer, o prédio não vai ser limpo. Se o vigia, concursado, adoecer, o prédio fica sem segurança. Se a moça da recepção adoecer, não tem quem atenda ao telefone e às pessoas que chegam... OK... Isso porque, se essas pessoas são concursadas, são funcionárias diretas da empresa, o que faz com que elas tenham o direito de se afastarem por motivos de saúde.
Tão acompanhando meu desenho?
Seguindo... Já quando se contrata uma empresa terceirizada, a contratante não quer saber se a tia, o tio ou a pqp adoeceu. Ela PAGA aquela empresa pra ter ti@s limpando, ti@s na recepção e ti@s na segurança. Se adoecer, manda outr@.
A contratante PAGA. Porque a contratante geralmente é uma empresa grande, ou, pelo menos, maior do que a terceirizada...
O que acontece? Aquele afastamento por doença da tiazinha tem que acontecer, mas eles mandaram outra pessoa no lugar... Acidentes de trabalho acontecem (consultem as estatísticas) em muito maior proporção com trabalhadores terceirizados, porque essas empresas geralmente não têm estrutura adequada para fornecer o suporte e a segurança para seus colaboradores...
Outro fator importantíssimo a ser considerado: as pessoas não trabalham em terceirizadas porque escolheram trabalhar lá. Na maior parte dos casos são pessoas humildes e que não tiveram condições de conseguir um trabalho melhor.
Porque essas empresas PAGAM MAL.
Essas empresas ATRASAM (E MUITO) OS SALÁRIOS.
Essas empresas lidam com as pessoas como PEÇAS.
Pessoas são DEMITIDAS e CONTRATADAS todos os dias, e numa rotatividade alta, porque??
Porque, quanto mais tempo o funcionário fica na empresa, mais caro fica o salário e mais caro ficam os encargos rescisórios.
Não é difícil de entender...
Claro que a empresa tem que pensar nela... SEMPRE FOI ASSIM. Na regra geral, o trabalhador foi feito pra se ferrar. Então, países como o Brasil, vêm desenvolvendo leis trabalhistas constantemente (algumas muito boas, aliás), para tentar assegurar a essas pessoas, as condições para levarem uma vida sem ficarem na corda bamba todo o tempo. Para que tenham SEGURANÇA.
EU já trabalhei (por muito pouco tempo, mas trabalhei) numa terceirizada. Sei do que estou falando. Eles são desorganizados, não respeitam datas e prazos... Mas não te pagam "juros" quando atrasam teu salário... Na real, pensam que tu tem é que agradecer por eles te pagarem, ainda que as tuas contas venham cheias de juros e taxas depois, com os quais quem vai ter que arcar é tu!

Voltando à lei em si...
Hoje, só são permitidas terceirizações até as atividade MEIO. Ou seja, numa construtora, tu pode contratar pessoas em funções específicas que não sejam a de propriamente construir a coisa, sacam? Contrata uma empresa de fundações, mas não pode contratar uma empresa pra levantar o prédio... porque é isso que a TUA empresa faz, ou seja, é a ATIVIDADE FIM dela. Tu tem que ter os teus funcionários, pelos quais tu é responsável.
Essa lei quer permitir que até as atividades fim tenham a possibilidade de terceirização. Assim, tu seria só o dono, pagaria pra outras terceirizadas botarem as pessoas pra trabalhar, não pagaria direitos trabalhistas pra ninguém, se alguém se machucasse ou ficasse doente, aquela outra empresa, menor, é que se vire. Enfim, pra ti tudo fica ótimo! Tu tá pagando o contrato com a empresa em dia, certinho, e acha que tá tudo nos conformes...
E pras pessoas???
Essas terceirizadas nascem e morrem todos os dias... Porque são mal administradas e constantemente estão falindo. Quem se ferra???
O argumento de que o "custo" de se manter funcionários e com leis trabalhistas é muito alto até tem fundamento. Mas, sinceramente, não é ferrando com a vida de quem já tem menos condições que vai se resolver as coisas. Se tem que ser feito um remodelamento do sistema fiscal, ou rever a carga das empresas, que seja, mas não às custas do povo.

Tah... acho que foi suficiente.