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Yay, caramba!
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— Ai... Viviane... desculpa... Não sei o que dizer. Acho que vou ligar pra uma amiga, de repente vou pra casa dela... Mas não precisa me levar. Eu pego um taxi. Você nem precisava estar aqui...
— Não esquenta a cabeça... Vamos dar uma volta, você tenta ligar pra ele de novo. Se ele não atender, eu te levo pra onde você quiser, não é trabalho nenhum. Já estamos aqui mesmo...
Fizemos como ela falou. E o João não atendeu. Mandei mensagem, Whats. Fiquei com muita raiva. Tentei falar com uma amiga (a única que, naquele momento, eu tinha a cara de pau de pedir guarida), mas também não deu em nada. Como meus pais não moram em Porto Alegre, não me sobrou muita opção.
— Vai lá pra casa.
— Ah é... — morri de vergonha — Depois de tudo isso que você já está fazendo! Bem capaz que vou chegar nesse cúmulo!
— Ui ui ui. Acha o que, que vou te demitir por causa disso? Se você for pensar bem, tudo começou por causa do meu pedido pra você ir nessa maldita reunião que não aconteceu. Você teve que desmarcar seu compromisso, brigou com seu marido e deu nisso... Não vou te largar num hotel ou coisa parecida. Até porque, eu é que teria que pagar — riu — Não é mesmo? E eu sou muito mão de vaca.
No fim das contas, acabei indo pra casa dela. Um belo apartamento, num belo bairro, um belo prédio. Entramos, ela foi logo tirando os sapatos, e me pediu que fizesse o mesmo e ficasse à vontade.
— Cerveja? Vinho? Algo mais forte pra espantar a zica?
Concordei com a terceira opção. Foi até o bar e pegou uma garrafa de uísque. Serviu duas doses. Peguei meu copo, e, enquanto ela ia até o quarto, fui apreciar a incrível vista da sacada. Ela retornou.
— Caralho! Que lua!
Eram mais palavrões vindos da chefe do que eu imaginava pra uma só noite e que era, tecnicamente, de negócios. Mas, depois de tanta coisa que já tinha acontecido de esquisito naquele dia, concordei e ri.
— Quer falar sobre o que aconteceu com seu marido hoje?
Hesitei um pouco.
— Calma... Isso é totalmente extraoficial. O expediente já acabou faz horas. Palavra de escoteiro.
Fiz um breve silêncio, respirei fundo e, depois de dar uns bons goles no Jack Daniel’s, comecei a falar. Era fácil conversar com ela. Parecia muito estranho, num primeiro momento, estar falando sobre coisas tão pessoais. Mas, depois de um começo meio tosco, naquela manhã, no escritório, tudo parecia tão simples. Passado o primeiro "choque" de ser chamada pela chefe, não conseguia mais me sentir desconfortável ou constrangida perto dela. E isso me parecia ótimo. Estávamos nos dando muito bem e eu estava há muito pouco tempo trabalhando com ela. Aliás, duvido que algum colega sequer soubesse onde ela mora. Talvez a Cláudia, que é uma das mais antigas e próximas a ela.
Em algum momento eu acho que já estava ficando meio bêbada, porque mencionei até a transa de antes da “reunião que não aconteceu”...
— Nossa. Então as coisas entre você e seu marido são quentes...
— O problema é justamente esse.
Ela fez cara de “ah, vá”.
— Ele me falou uma coisa hoje... que me deixou extremamente incomodada... Ele disse que eu resolvo tudo com sexo.
Ela fez uma expressão de alívio.
— Ufa.
— Que foi?
— Ainda bem que essa reunião nem começou...
Rimos alto.
— É sério, Viviane. Acho que ele tem razão. Sempre que temos um problema, uma discussão, eu apelo pro sexo. Acabo, literalmente, fodendo as coisas.
— Pelo menos vocês fodem. Isso já é muita coisa pra muito casal por aí.
— Mas acabamos não conversando, sabe? As coisas ficam mal resolvidas...
— E você gosta de transar com ele, pelo jeito, né... E isso é ótimo.
— Gosto.
Respondi tão prontamente à sua afirmação que, depois, parei pra pensar. Ficamos em silêncio. E eu me senti meio estranha. Sentia que a maneira como eu tinha dito aquilo soou estranha. Sem convicção, com preguiça. Ela percebeu que tocara em algo delicado, e ficou super sem jeito.
— Vish. Desculpa por te fazer falar nisso... Na real, não é da minha conta. Pode me cortar se achar que estou me metendo onde não devo. Às vezes perco um pouco a noção.
— Não. Tudo bem. Você não tem culpa.
Aproximou-se e me deu um inesperado e curto abraço. Novo silêncio. Ficamos olhando a lua. E eu estava, dessa vez de verdade, me sentindo moderadamente alcoolizada.
— Sério. Não consigo enxergar como um problema o fato de você gostar de sexo... — riu.
— Então não tente me demitir — brinquei, tentando retornar ao clima extrovertido de momentos antes.
— Ué. Acho que não sou bem o seu tipo...
— Olha pra você. Bem-sucedida, poderosa, linda... Seria um crime dispensar algo assim, até pra quem se diz hétero... — falei isso olhando pra ela, bem de perto, pegando em seu queixo. E ficamos nos olhando longamente.
Ela se afastou. Não entendi. Estávamos só brincando, não?
Voltou pra dentro. Sentou-se no sofá. Parei atrás dela, fiquei meio perdida, sem entender o que estava acontecendo. Pus a mão em seu ombro.
— Olha... Desculpa pela brincadeira. Perdão se te deixei desconfortável... É a minha mania... O João tem razão. Tenho que sexualizar tudo...
— Não precisa se desculpar.
Contornei o móvel e sentei do seu lado. Ela estava com os olhos mareados. Comecei a ficar confusa. Ficamos nos olhando, em silêncio, por uma eternidade, eu acho, sem saber o que dizer ou fazer. E esse foi o problema... O que eu faço quando não sei o que fazer... Uma coisa meio louca me passou pela cabeça. Fui lentamente aproximando meu rosto do seu e, antes que pudesse me deter ou pensar, já estava beijando sua boca. Ela não resistiu. Não me repeliu. Pelo contrário, puxou-me para si, e me beijava de volta, com vontade. Quando entendi o que estava fazendo, ela estava no meu colo, e eu subia sua saia, sem tirar minha língua da sua boca. Quase arranquei aquela camisa... E, nossa! Que lingerie sexy! Nunca tinha sentido tesão ao ver o corpo de outra mulher. Mas aquela, ali, tão perto, despertou um desejo que eu não conseguia controlar. Sentada sobre mim, ela se movia de um jeito que roçava a calcinha na minha coxa, e aquilo me deixou muito molhada. Aquela camisa aberta... Desprendi, habilidosamente, o sutiã, queria aqueles peitos. Ela gemeu quando eu encostei a língua... Agarrou-me pelos cabelos, enquanto eu lambia e chupava um, depois o outro e gemia mais alto.
De repente, ela se levantou.
— Que foi? — falei, ainda tentando processar aquilo tudo.
— É melhor a gente parar por aqui...
Levantei, ficamos frente a frente, nos olhando, de novo, sem dizer uma palavra. Essa falta de ação, essa atitude descoordenada, e também essa Bianca impulsiva e inconsequente não eram muito latentes na minha personalidade. Eu a queria... Mas não conseguia mais me mexer. Fiquei paralisada, olhando fixamente aqueles olhos castanhos.
— Acho que eu tenho que ir embora... Agora.
Estava meio desnorteada. Comecei a pensar em tudo o que poderia ter colocado em jogo naquele impulso.
— Não. Fica. Pode ficar naquele quarto — apontou uma porta ao lado da sua — Essa hora não é uma boa sair. Ainda mais sem saber se vai conseguir entrar em casa... E não estou mais em condições de me oferecer pra te levar.
Concordei. E não disse mais nada. Apenas movi as pernas na direção apontada. Instantes depois ela bateu à porta do quarto e me entregou um pijama. Agradeci. Ela saiu e foi para o seu quarto. Não conversamos mais.
Minha cabeça estava girando. E eu me sentia culpada, afinal, tinha agarrado minha chefe, uma mulher... Não podia ter feito isso. Não podia ter colocado, mais uma vez, o sexo no meio das coisas... Senti-me muito mal. Lembrei do João... E chorei. Baixinho. Chorei por quase uma hora, até conseguir dormir.
Acordei antes dela, e saí à francesa. Não queria encará-la naquela manhã. Acho que não teria coragem de olhar pra ela de novo. Cheguei em casa e o João não estava, mas tinha deixado a minha chave com o porteiro. Pela louça do café na pia, presumi que tinha saído há pouco pra trabalhar. E era o que eu devia fazer, embora não tivesse muita coragem. Tomei um longo banho. Tentava me acalmar pra encarar aquilo tudo de frente. Mas agora tinha um novo fantasma. Lembrava daquela noite. A imagem daquela mulher sobre mim era quase tátil. Se eu fechasse os olhos, era capaz de senti-la de novo, seus peitos, seu corpo, sua pele. Não consegui me conter... A água quente escorria pelo meu corpo e eu me tocava, imaginando como seria se ela não tivesse parado, se tivéssemos continuado... Gozei imaginando Viviane entre minhas pernas e entre meus lábios.
Fui trabalhar bastante atrasada, e morrendo de medo. Ela não foi. Não apareceu. Ela podia não aparecer. Ela era a chefe.
Cláudia ligou no meio da manhã pra saber da reunião. Eu não sabia bem o que dizer. E optei pela verdade... até a parte em que a reunião não aconteceu, claro. Não, eu não sabia por que a Dra. Marins não tinha vindo para o escritório nesta manhã. Não, não sabia se tinha acontecido alguma coisa. E não, não entendia por que ela não atendia o celular.
O dia se arrastou.
Fiquei sabendo, pela secretária trilíngue do óculos com armação azul, que ela ligou perto do meio-dia, avisando que teve uma viagem urgente, de última hora... Provavelmente pra Saturno... Ou Plutão. Eu sabia que não tinha compromisso nenhum. Sabia o porquê de ela não ter aparecido.
Quando voltava pra casa, dentro da lotação, senti um desespero tão grande, uma claustrofobia... Desci correndo, na metade do caminho, e entrei na primeira padaria que vi. Tomei um café. Com açúcar, dessa vez. O café mais demorado da minha vida. E fui pra casa a pé. Quando cheguei, dei de cara com o João, indignado, perguntando porque meu celular estava desligado, e por que eu não tinha falado com ele o dia inteiro. Foi quando me lembrei de quem eu era.
— Se você quisesse falar comigo, era só ter ligado.
— Mas eu liguei, Bia. E deu caixa postal.
— Devo ter ficado sem bateria, então.
— O que aconteceu? Por que você não veio dormir em casa?
— Ah, você tava em casa, então? Porque eu te liguei várias vezes ontem, liguei pra cá, pra porra do teu celular, toquei a merda do interfone, e nada!
— Eu tenho culpa de você ter esquecido essa bosta dessa chave, de novo?? Se tivesse olhado na garagem, teria visto que o carro tava ali... E você dormiu onde?
— Com a minha chefe... Digo, na casa dela... — Fiquei realmente constrangida. Ele nem ligou. Acho que não foi tão óbvia a minha autoincriminação. Afinal, eu era a esposa ninfomaníaca louca por um pau. Mas, ainda assim, tentei remendar — Ela me trouxe até aqui e foi gentil de me ajudar quando eu fiquei, que nem uma idiota, tentando entrar em casa... Não pensei em olhar carro nenhum. E também não podia deixar a minha chefe plantada... Tentei falar com a Jana, que também não me atendeu. Acabei aceitando, morta de vergonha, a gentileza da Viviane. Ainda bem que ela é super de boas e não se incomodou com isso tudo. Agora vou tomar um banho e dormir. Minha cabeça tá explodindo...
E já fui em direção ao banheiro antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Não conseguia dormir. E dessa vez, por incrível que pareça, não estava pensando no corpo de Viviane, no tesão, e nem no meu marido ou no seu pau. Fechava os olhos e enxergava os castanhos dela. Levei um susto quando ele deitou ao meu lado e me abraçou.
— Desculpa, gostosa... Eu me distraí ontem à noite, jogando no computador. Estava com os fones, não escutei... Deve ter sido a hora em que você tentou me ligar... Devia ter retornado as ligações. Mas tava de cabeça quente... — ele falava com as mãos procurando meu corpo debaixo das cobertas.
— Me deixa, João... Me deixa... Hoje eu não quero.
Ele obedeceu. Virou pro lado e começou a roncar em menos de vinte minutos. Eu demorei umas três horas pra conseguir dormir. E muito mal.
O dia seguinte no trabalho foi igualmente angustiante. Ela não apareceu, como já tinha deixado avisado, e ninguém parecia dar muita bola, afinal, ela era a chefe e podia fazer o que quisesse. Mas eu estava ficando meio surtada com aquela situação. Já era sexta-feira. Não tinha mais o que fazer.
Meu final de semana foi uma porcaria. O João achou que eu estava de TPM, nem chiou muito e me deixou em paz. Fiquei a maior parte do tempo na cama, com a cara enfiada no computador, fazendo absolutamente nada de útil. No meio do meu ócio, encontrei (porque procurei) o perfil dela no Facebook. Dois amigos em comum: a Cláudia e um ex-colega meu da faculdade. Claro que não tive coragem de adicionar, mas bisbilhotei absolutamente tudo o que era possível, não sendo sua amiga... Uma foto me prendeu por vários minutos: ela estava numa praia, abraçada com outra mulher, a autora da postagem, que havia lhe marcado. “Uma tarde mais que agradável... Agradabilíssima” era a legenda da selfie.
(continua)
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