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Sentei. Ela também. Eu não entendia muito bem por que estava me sentindo nervosa. Era uma situação bastante comum. Acho que a coincidência com o meu devaneio me deixou instável.
— Bom dia, Bianca.
— Bom dia...
— Bem, vou ser direta. Você sabe que temos uma reunião hoje, pra discutirmos os acertos finais desse contrato... — e apontou a pilha de folhas que estava virada pra mim. Olhei, acenei positivamente com a cabeça. Ela continuou — E você está envolvida na elaboração e revisão desse contrato, não? Você é quem está fazendo isso, junto com a Cláudia. — Novamente, apenas acenei com a cabeça, o que já estava parecendo esquisito demais... — Pois bem. A reunião estava marcada para as 16 horas. Mas parece que o presidente da empresa resolveu estar presente, o que nos obrigaria a mudar o horário ou a data. Infelizmente, esse mesmo presidente não tem outra data disponível tão cedo pra se dar ao trabalho de vir a Porto Alegre, o que faz com que isso tenha que ser hoje, pois já estamos ficando sem tempo. Cheguei a sugerir uma videoconferência, mas ele não parece muito adepto dessas “modernidades” — torceu o nariz com um ar afetado ao pronunciar a última palavra — A Cláudia estava escalada pra vir comigo, mas, com essa mudança repentina no horário, ela não vai poder, pois tem um compromisso pessoal importante e nem eu tenho o direito de pedir a ela que cancele. Então, conversamos e ela me disse que poderia confiar em você para participar da reunião no lugar dela.... Enfim, eu gostaria de saber se você pode. Se importa?
—Capaz. Tranquilo. — what?? “Capaz”?? “Tranquilo”??? Isso é coisa que se responda? Preciso verificar aquele café. Pode não ser conhaque, mas alguma coisa bizarra foi colocada nele!
Ela riu da minha resposta.
— Você está bem? Parece incomodada com alguma coisa...
— Não. Não... é o frio... Estou com um pouco de frio.
— Ah, sim. Você está com pouca roupa mesmo... Pra um dia como esse... E ainda estamos com esse problema na central do ar. Mais uma coisa pra eu verificar ainda hoje, aliás. Precisam consertar isso.
Ficamos um instante em silêncio. E eu estava sendo engolida por um vácuo, um buraco negro de constrangimento que surgiu sabe-se lá de onde! Não tinha motivos pra estar tão desconfortável. Parecia uma retardada. Tentei organizar alguma coisa na minha cabeça idiota.
— Dra. Marins, me desculpe... é qu
— Viviane.
— Oi?...
— Viviane. Me chame de Viviane. Essa insistência em me chamarem pelo sobrenome me faz sentir uma velha de setenta anos... Ou um coronel do exército.
Não consegui rir. Estava com medo de esse lapso ser um dano permanente no meu cérebro.
— Então... Viviane... Me desculpe também por isso. É que estou há pouco tempo trabalhando aqui, e...
— Entendo. Só “seguiu o curso”... Afinal, todos me chamam de Marins.
— Com Doutora na frente.
Mas ela conseguia rir. E bastante naquele dia, aliás. Era uma das primeiras vezes em que conversávamos sem estar com outros colegas. E eu já a tinha visto sorrir, naquela manhã, mais do que nos últimos três meses. Fiquei feliz com aquela sensação. Tentei relaxar. Sua risada, por estranho que pareça, me deixou menos nervosa. Acho que ela estava mesmo tentando quebrar o clima inexplicavelmente tenso.
— Bianca. Preciso de você.
— Oi?
Ela riu de novo.
— Desculpe...
— Pare de se desculpar, mulher. Deve ser o frio que faz isso com as pessoas — e riu de novo. Acho que ela achou uma função pra mim no escritório: fazê-la dar risadas... — Eu preciso que você me acompanhe nessa reunião. Tranquilo? — falou, fazendo alusão ao que eu tinha respondido, pateticamente, antes.
— Ah, sim. Claro. Mas, será onde? Aqui mesmo?
— Sim. Eles queriam marcar noutro lugar, mas achei melhor insistir em, pelo menos, manter o nosso território. Assim, a probabilidade de eu me esquecer de alguma coisa importante já fica anulada. Aqui, na sala de reuniões. Às 20 horas.
Tentei rever, mentalmente, meus horários daquele dia.
— Put...z.
Jesus! Alguém me tire daqui. “PUTZ”. Pelo menos foi um putz... Comparando com a soma geral dos últimos minutos, já me sentia no lucro por ter conseguido segurar o sonoro putaquepariu que estava escapando.
— Algum problema?
— Não. Não...
— Olha, se você tem compromisso, eu encaro essa reunião sozinha. Da mesma forma que não poderia cobrar isso da Cláudia, não vou fazer com você...
— Não... Não se preocupe. Eu tinha um jantar com o meu marido, e uns amigos... Mas posso remarcar, deixar pra outro dia... Não é nada importante. Era mais um happy-hour.
— Não quero atrapalhar. Na verdade, nem sabia que você era casada. Você está trabalhando conosco há tão pouco tempo, nem tivemos uma oportunidade de conversar direito ainda. Sei que isso não estava planejado, essa reunião nesse horário. Você não tem obrigação nenhuma de vir...
— Pode contar comigo.
— Mas...
— Eu dou um jeito. A senhora já falou que a
— Pelo amor de Deus! Senhora não, né. Nem doutora e nem senhora. Preciso acabar com essa “coisa” aqui dentro...
— Já sei. Viviane.
— Isso.
— Pois então, você, Viviane, já falou que a Cláudia não pode vir. Eu posso.
— Bem, nesse caso, estamos combinadas. Você pode sair mais cedo, porque não pretendo também ficar aqui fazendo hora. Saia mais cedo, vá pra casa, e retorne um pouco antes da reunião, pra discutirmos alguns detalhes, pode ser?
— Claro.
— Apenas te peço pra dar uma relida no contrato. Não quero deixar escapar nada. Temos que estar afiadas.
Saí da sala ainda meio atordoada. Mas estava me sentindo muito bem por ter essa oportunidade assim, tão cedo. Era uma reunião bem importante. O contrato era uma grande jogada. Um passo grande.
Depois disso o meu dia transcorreu normalmente. E frio. Até umas três da tarde, quanto ela saiu da sala e veio até minha mesa:
— Pode ir, se quiser. Eu já estou indo.
E virou as costas e se foi. E todos me olharam com cara de interrogação. Adorei. Mas ainda fiquei por cerca de meia hora, resolvendo algumas coisas pendentes, principalmente e-mails que não poderiam ficar sem resposta. Então fui pra casa.
— Bom dia, Bianca.
— Bom dia...
— Bem, vou ser direta. Você sabe que temos uma reunião hoje, pra discutirmos os acertos finais desse contrato... — e apontou a pilha de folhas que estava virada pra mim. Olhei, acenei positivamente com a cabeça. Ela continuou — E você está envolvida na elaboração e revisão desse contrato, não? Você é quem está fazendo isso, junto com a Cláudia. — Novamente, apenas acenei com a cabeça, o que já estava parecendo esquisito demais... — Pois bem. A reunião estava marcada para as 16 horas. Mas parece que o presidente da empresa resolveu estar presente, o que nos obrigaria a mudar o horário ou a data. Infelizmente, esse mesmo presidente não tem outra data disponível tão cedo pra se dar ao trabalho de vir a Porto Alegre, o que faz com que isso tenha que ser hoje, pois já estamos ficando sem tempo. Cheguei a sugerir uma videoconferência, mas ele não parece muito adepto dessas “modernidades” — torceu o nariz com um ar afetado ao pronunciar a última palavra — A Cláudia estava escalada pra vir comigo, mas, com essa mudança repentina no horário, ela não vai poder, pois tem um compromisso pessoal importante e nem eu tenho o direito de pedir a ela que cancele. Então, conversamos e ela me disse que poderia confiar em você para participar da reunião no lugar dela.... Enfim, eu gostaria de saber se você pode. Se importa?
—Capaz. Tranquilo. — what?? “Capaz”?? “Tranquilo”??? Isso é coisa que se responda? Preciso verificar aquele café. Pode não ser conhaque, mas alguma coisa bizarra foi colocada nele!
Ela riu da minha resposta.
— Você está bem? Parece incomodada com alguma coisa...
— Não. Não... é o frio... Estou com um pouco de frio.
— Ah, sim. Você está com pouca roupa mesmo... Pra um dia como esse... E ainda estamos com esse problema na central do ar. Mais uma coisa pra eu verificar ainda hoje, aliás. Precisam consertar isso.
Ficamos um instante em silêncio. E eu estava sendo engolida por um vácuo, um buraco negro de constrangimento que surgiu sabe-se lá de onde! Não tinha motivos pra estar tão desconfortável. Parecia uma retardada. Tentei organizar alguma coisa na minha cabeça idiota.
— Dra. Marins, me desculpe... é qu
— Viviane.
— Oi?...
— Viviane. Me chame de Viviane. Essa insistência em me chamarem pelo sobrenome me faz sentir uma velha de setenta anos... Ou um coronel do exército.
Não consegui rir. Estava com medo de esse lapso ser um dano permanente no meu cérebro.
— Então... Viviane... Me desculpe também por isso. É que estou há pouco tempo trabalhando aqui, e...
— Entendo. Só “seguiu o curso”... Afinal, todos me chamam de Marins.
— Com Doutora na frente.
Mas ela conseguia rir. E bastante naquele dia, aliás. Era uma das primeiras vezes em que conversávamos sem estar com outros colegas. E eu já a tinha visto sorrir, naquela manhã, mais do que nos últimos três meses. Fiquei feliz com aquela sensação. Tentei relaxar. Sua risada, por estranho que pareça, me deixou menos nervosa. Acho que ela estava mesmo tentando quebrar o clima inexplicavelmente tenso.
— Bianca. Preciso de você.
— Oi?
Ela riu de novo.
— Desculpe...
— Pare de se desculpar, mulher. Deve ser o frio que faz isso com as pessoas — e riu de novo. Acho que ela achou uma função pra mim no escritório: fazê-la dar risadas... — Eu preciso que você me acompanhe nessa reunião. Tranquilo? — falou, fazendo alusão ao que eu tinha respondido, pateticamente, antes.
— Ah, sim. Claro. Mas, será onde? Aqui mesmo?
— Sim. Eles queriam marcar noutro lugar, mas achei melhor insistir em, pelo menos, manter o nosso território. Assim, a probabilidade de eu me esquecer de alguma coisa importante já fica anulada. Aqui, na sala de reuniões. Às 20 horas.
Tentei rever, mentalmente, meus horários daquele dia.
— Put...z.
Jesus! Alguém me tire daqui. “PUTZ”. Pelo menos foi um putz... Comparando com a soma geral dos últimos minutos, já me sentia no lucro por ter conseguido segurar o sonoro putaquepariu que estava escapando.
— Algum problema?
— Não. Não...
— Olha, se você tem compromisso, eu encaro essa reunião sozinha. Da mesma forma que não poderia cobrar isso da Cláudia, não vou fazer com você...
— Não... Não se preocupe. Eu tinha um jantar com o meu marido, e uns amigos... Mas posso remarcar, deixar pra outro dia... Não é nada importante. Era mais um happy-hour.
— Não quero atrapalhar. Na verdade, nem sabia que você era casada. Você está trabalhando conosco há tão pouco tempo, nem tivemos uma oportunidade de conversar direito ainda. Sei que isso não estava planejado, essa reunião nesse horário. Você não tem obrigação nenhuma de vir...
— Pode contar comigo.
— Mas...
— Eu dou um jeito. A senhora já falou que a
— Pelo amor de Deus! Senhora não, né. Nem doutora e nem senhora. Preciso acabar com essa “coisa” aqui dentro...
— Já sei. Viviane.
— Isso.
— Pois então, você, Viviane, já falou que a Cláudia não pode vir. Eu posso.
— Bem, nesse caso, estamos combinadas. Você pode sair mais cedo, porque não pretendo também ficar aqui fazendo hora. Saia mais cedo, vá pra casa, e retorne um pouco antes da reunião, pra discutirmos alguns detalhes, pode ser?
— Claro.
— Apenas te peço pra dar uma relida no contrato. Não quero deixar escapar nada. Temos que estar afiadas.
Saí da sala ainda meio atordoada. Mas estava me sentindo muito bem por ter essa oportunidade assim, tão cedo. Era uma reunião bem importante. O contrato era uma grande jogada. Um passo grande.
Depois disso o meu dia transcorreu normalmente. E frio. Até umas três da tarde, quanto ela saiu da sala e veio até minha mesa:
— Pode ir, se quiser. Eu já estou indo.
E virou as costas e se foi. E todos me olharam com cara de interrogação. Adorei. Mas ainda fiquei por cerca de meia hora, resolvendo algumas coisas pendentes, principalmente e-mails que não poderiam ficar sem resposta. Então fui pra casa.
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