Primeiramente: tirem as crianças da sala!
Esse conto foi escrito por uma pessoa adulta para ser lido por pessoas adultas. Alguns trechos podem (e vão!) conter palavrões e sexo.
Esse conto foi escrito por uma pessoa adulta para ser lido por pessoas adultas. Alguns trechos podem (e vão!) conter palavrões e sexo.
É um texto bastante longo, que optei por dividir em partes e ir postando ao longo dos dias.
Obs.: Se eu não me engano, Bianca era o nome de um daqueles livrinhos que vendia nas bancas, com nomes de mulher, sempre um romancezinho que as nossas mães liam e achavam bem utererê. But, no.
Eis a primeira parte, e vamos começar devagarinho:
___________________________________________
BIANCA
E, por mais que os invernos estejam cada vez mais escassos por aqui, ainda sou surpreendida com aquele dia frio demais para a pouca roupa que escolhi. E, sistematicamente, esqueço de abrir a janela ou ir até a sacada para sentir a temperatura antes de ver o que vestir. Quando saio do prédio, oito andares abaixo, a preguiça me impede de retornar e colocar um agasalho decente. Passo o dia gélida, e termino com dor nas costas.
Bom dia, junho. E me vê um conhaque.
Seria menos sofrível se eu fosse de carro pro trabalho, mas, no fim das contas, meu marido é quem tem essa vantagem. E nem posso pedir que me leve, pois ele sai uma hora e meia antes de mim. Tampouco seria justo querer eu usar o carro no lugar dele, pois meu trabalho é na metade da distância, e na direção oposta. E, me desculpa, mas morro de frio na rua pra não ter que sair da cama uma hora e meia mais cedo! Paciência, então, né.
A lotação estava com o aquecimento ligado. Menos alguns minutos de sofrimento. Vejo que o dia pode melhorar. Chego no trabalho e descubro que estamos com problemas no sistema de ar. Que ótimo! Vai ser bacana passar o dia dentro desse iceberg! Parabéns. Litros de café quase fervendo pra ver se melhora. E bem que podia rolar aquele conhaque... no café. Ninguém iria notar. Talvez quando eu começasse a falar alto demais e rir, com as bochechas vermelhas. Talvez seria demitida. Comecei a rir sozinha — sem conhaque — ao imaginar a cena: eu, bêbada e descomposta, e a secretária trilíngue do óculos com armação azul vindo até minha mesa, toda sem graça “Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo”. Então, ao som de uma trilha de suspense, eu me levanto, fingindo uma firmeza tosca e alcoolizada, e vou até a sala da temida “mulher de preto”.
Pausa na imaginação para falar de cores. A Marins só usa preto. Preto com preto, preto com branco, preto com cinza. Esses dias ela usou uma camisa que eu poderia jurar que era azul, por baixo do terninho carérrimo, mas me convenceram que era cinza azulado. Uma mulher rica, inteligente, poderosa, aparentemente reservada, para quem não convive com ela, temida e admirada. Ninguém sabe muito da sua vida pessoal. Quando aparece em algum tipo de evento fora do escritório, está geralmente sozinha. Fala pouco, sorri moderadamente, e sempre vai embora antes de praticamente qualquer outra pessoa. Não faz a linha “megera”, porque trata todos com extremo respeito. Mas é exigente como se poderia esperar de alguém em sua posição. O mais incrível é que não estou falando de uma senhora. Estou falando de uma mulher de apenas trinta e seis anos. Cinco a mais que eu. E muitos a menos do que boa parte das pessoas que trabalham pra ela. Raramente se escuta o seu primeiro nome. Viviane. Acho mais bonito “Doutora Viviane”. Essa coisa de sobrenome é meio exército demais pro meu gosto. Mas, apesar de ela mesma não gostar de ser chamada desse jeito, o “excesso de respeito” impera por aqui.
Solteira convicta, desde que tinha vinte e poucos anos e terminou um noivado com um antigo namorado, ela jamais foi vista com ninguém, não por mais de uma festa ou evento isolado. Bem, não que seja, assim, uma celebridade, pra que tenha paparazzi ou stalkers a seguindo, mas nenhum colega ou conhecido relatou tê-la visto acompanhada por alguém de forma que se pudesse sugerir algum grau de relacionamento mais íntimo desde então. Meio nova pra ser taxada como uma solteirona. De qualquer forma, ponto pra ela no quesito discrição. Honestamente, não acredito que ela esteja todo esse tempo sozinha. Já escutei alguns boatos desde que comecei a trabalhar aqui, há pouco mais de três meses. Um ex-sócio, um advogado bonitão e até mesmo um rumor de que ela seria gay. Nada disso passando de teorias e especulações. Eu não apostaria uma unha na homossexualidade dela... Embora discreta, ela parece “das minhas”: gosta mesmo é de um macho.
E eu ali, em meio a minha viagem imaginativa daquela manhã congelante, quando escuto algo familiar.
— Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo.
Êpa! Até dei uma conferida no meu café, pra ver se, de fato, eu não tinha colocado algo nele. Não. Café puro. Preto, forte e sem açúcar. Fiquei olhando pra secretária trilíngue do óculos com armação azul por alguns instantes, tentando processar a informação. Ela deve ter pensado em conferir meu café também. Eu parecia, definitivamente, bêbada. Queria ir ao banheiro, ver se meu estado era tão deplorável quanto eu achava que era. Se estava descabelada, vermelha de vergonha — ou roxa de frio, mais provável. Mas ficaria mais esquisito ainda, depois da convocação sumária da chefe. Então, vamos lá! Respondi apenas “obrigada”, com um sorriso amarelo, levantei e fui. Me preparava para bater à porta quando ela abriu. De preto. Claro. Mas acho que ela não “adivinhou” que eu estava ali, com a mão erguida e o punho levemente fechado, pois estava com a cabeça baixa, distraída e, literalmente, nos esbarramos. Ela riu. Ufa. Riu de verdade. Riu quase alto. E pediu desculpa. Os colegas viram, escutaram, e não souberam muito bem como reagir. Ela deu um passo pro lado, e me pediu que entrasse. Presumi que não seria demitida por trabalhar alcoolizada.
Bom dia, junho. E me vê um conhaque.
Seria menos sofrível se eu fosse de carro pro trabalho, mas, no fim das contas, meu marido é quem tem essa vantagem. E nem posso pedir que me leve, pois ele sai uma hora e meia antes de mim. Tampouco seria justo querer eu usar o carro no lugar dele, pois meu trabalho é na metade da distância, e na direção oposta. E, me desculpa, mas morro de frio na rua pra não ter que sair da cama uma hora e meia mais cedo! Paciência, então, né.
A lotação estava com o aquecimento ligado. Menos alguns minutos de sofrimento. Vejo que o dia pode melhorar. Chego no trabalho e descubro que estamos com problemas no sistema de ar. Que ótimo! Vai ser bacana passar o dia dentro desse iceberg! Parabéns. Litros de café quase fervendo pra ver se melhora. E bem que podia rolar aquele conhaque... no café. Ninguém iria notar. Talvez quando eu começasse a falar alto demais e rir, com as bochechas vermelhas. Talvez seria demitida. Comecei a rir sozinha — sem conhaque — ao imaginar a cena: eu, bêbada e descomposta, e a secretária trilíngue do óculos com armação azul vindo até minha mesa, toda sem graça “Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo”. Então, ao som de uma trilha de suspense, eu me levanto, fingindo uma firmeza tosca e alcoolizada, e vou até a sala da temida “mulher de preto”.
Pausa na imaginação para falar de cores. A Marins só usa preto. Preto com preto, preto com branco, preto com cinza. Esses dias ela usou uma camisa que eu poderia jurar que era azul, por baixo do terninho carérrimo, mas me convenceram que era cinza azulado. Uma mulher rica, inteligente, poderosa, aparentemente reservada, para quem não convive com ela, temida e admirada. Ninguém sabe muito da sua vida pessoal. Quando aparece em algum tipo de evento fora do escritório, está geralmente sozinha. Fala pouco, sorri moderadamente, e sempre vai embora antes de praticamente qualquer outra pessoa. Não faz a linha “megera”, porque trata todos com extremo respeito. Mas é exigente como se poderia esperar de alguém em sua posição. O mais incrível é que não estou falando de uma senhora. Estou falando de uma mulher de apenas trinta e seis anos. Cinco a mais que eu. E muitos a menos do que boa parte das pessoas que trabalham pra ela. Raramente se escuta o seu primeiro nome. Viviane. Acho mais bonito “Doutora Viviane”. Essa coisa de sobrenome é meio exército demais pro meu gosto. Mas, apesar de ela mesma não gostar de ser chamada desse jeito, o “excesso de respeito” impera por aqui.
Solteira convicta, desde que tinha vinte e poucos anos e terminou um noivado com um antigo namorado, ela jamais foi vista com ninguém, não por mais de uma festa ou evento isolado. Bem, não que seja, assim, uma celebridade, pra que tenha paparazzi ou stalkers a seguindo, mas nenhum colega ou conhecido relatou tê-la visto acompanhada por alguém de forma que se pudesse sugerir algum grau de relacionamento mais íntimo desde então. Meio nova pra ser taxada como uma solteirona. De qualquer forma, ponto pra ela no quesito discrição. Honestamente, não acredito que ela esteja todo esse tempo sozinha. Já escutei alguns boatos desde que comecei a trabalhar aqui, há pouco mais de três meses. Um ex-sócio, um advogado bonitão e até mesmo um rumor de que ela seria gay. Nada disso passando de teorias e especulações. Eu não apostaria uma unha na homossexualidade dela... Embora discreta, ela parece “das minhas”: gosta mesmo é de um macho.
E eu ali, em meio a minha viagem imaginativa daquela manhã congelante, quando escuto algo familiar.
— Bianca, a Dra. Marins deseja falar contigo.
Êpa! Até dei uma conferida no meu café, pra ver se, de fato, eu não tinha colocado algo nele. Não. Café puro. Preto, forte e sem açúcar. Fiquei olhando pra secretária trilíngue do óculos com armação azul por alguns instantes, tentando processar a informação. Ela deve ter pensado em conferir meu café também. Eu parecia, definitivamente, bêbada. Queria ir ao banheiro, ver se meu estado era tão deplorável quanto eu achava que era. Se estava descabelada, vermelha de vergonha — ou roxa de frio, mais provável. Mas ficaria mais esquisito ainda, depois da convocação sumária da chefe. Então, vamos lá! Respondi apenas “obrigada”, com um sorriso amarelo, levantei e fui. Me preparava para bater à porta quando ela abriu. De preto. Claro. Mas acho que ela não “adivinhou” que eu estava ali, com a mão erguida e o punho levemente fechado, pois estava com a cabeça baixa, distraída e, literalmente, nos esbarramos. Ela riu. Ufa. Riu de verdade. Riu quase alto. E pediu desculpa. Os colegas viram, escutaram, e não souberam muito bem como reagir. Ela deu um passo pro lado, e me pediu que entrasse. Presumi que não seria demitida por trabalhar alcoolizada.
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